A Lei de Deus

Ao resumirmos o que constitui o verdadeiro conhecimento de Deus, mostramos que não podemos formar qualquer concepção justa do caráter de Deus sem nos sentirmos intimidados por sua majestade e compelidos a servi-lo.

— João Calvino

Ontem, um homem que eu encontrei pela primeira vez me perguntou: “E o que o Senhor está fazendo na sua vida?” (Algo na maneira como ele fez a pergunta, o tom da sua voz, e o seu jeito, incomodou-me.) A maneira de perguntar foi um pouco casual demais, como se a expressão fosse mecânica. Eu ignorei o meu incômodo e respondi a questão como se ela fosse sincera. Eu disse: “Ele tem me impressionado com a beleza e a doçura da sua lei”. Obviamente, o homem não estava preparado para minha resposta. Ele me olhou como se eu fosse de outro planeta. Visivelmente ele reagiu as minhas palavras como se eu fosse estranho apenas por tê-las proferido.

Nós estamos vivendo em uma era na qual não se tem dado muita atenção a lei de Deus, quer secularistas, quer cristãos. A lei, assumimos, é uma relíquia do passado, parte da história do cristianismo judaico para ser mais exato, mas sem relevância duradoura para a vida cristã. Estamos vivendo, na prática, a heresia antinomiana.

Uma pesquisa recente feita pela George Gallup Jr. revelou uma tendência surpreendente em nossa cultura. De acordo com a Gallup a evidência parece indicar que não existem padrões de comportamento que distinguam cristãos de não-cristãos em nossa sociedade. Parece que estamos todos marchando no mesmo passo, olhando para os padrões de mudança da cultura contemporânea para basear o que é conduta aceitável. O que todo mundo está fazendo parece ser nossa única regra ética.

Este padrão só pode emergir em uma sociedade ou igreja na qual a lei de Deus está eclipsada. A própria palavra lei parecer ter um som desagradável em nossos círculos evangélicos.

Vamos fazer uma experiência. Eu vou citar algumas passagens do Salmo 119 para nossa reflexão. Peço que você os leia experimentalmente, no sentido de sentir na pele e identificar-se de modo a compreender o autor. Tente sentir o que ele sentiu quando escreveu essas linhas milhares de anos atrás.

“Oh! quanto amo a tua lei!
É a minha meditação em todo o dia” (v. 97).

“Os teus testemunhos tenho eu tomado por herança para sempre,
pois são o gozo do meu coração. Inclinei o meu coração a guardar
os teus estatutos, para sempre, até ao fim” (v. 111, 112).

“Abri a minha boca, e respirei,
pois que desejei os teus mandamentos” (v. 131).

“Aflição e angústia se apoderam de mim;
contudo os teus mandamentos são o meu prazer” (v. 143).

Por acaso isso se parece como o cristianismo moderno? Acaso temos ouvido falar sobre pessoas que tem ansiado com paixão pela lei de Deus? Temos ouvido nossos amigos expressando alegria e deleite nos mandamentos de Deus?

Estes sentimentos são estranhos para nossa cultura. Alguns certamente diriam: “Mas isto é coisa do Velho Testamento. Fomos redimidos da lei, agora nosso foco está no evangelho, não na lei”.

Vamos continuar a experiência. Vamos ler alguns trechos de outro escritor bíblico, mas desta vez do Novo Testamento. Vamos ouvir de um homem que amava o evangelho, pregou-o e ensinou-o mais do que qualquer mortal. Vamos ouvir Paulo:

“Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido
para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em
novidade de espírito, e não na velhice da letra” (Rm 7.6).

“Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento,
operou em mim toda a concupiscência;
porquanto sem a lei estava morto o pecado” (Rm 7.8).

“E assim a lei é santa, e o mandamento
santo, justo e bom” (Rm 7.12).

“Porque, segundo o homem interior,
tenho prazer na lei de Deus” (Rm 7.22).

Isto parece vir de um homem que acreditava não haver lugar para a lei de Deus na vida cristã? Leia Paulo cuidadosamente e você encontrará um homem cujo coração ansiava pela lei de Deus tanto quanto Davi.

A história da igreja testemunha que em períodos de avivamento e reforma existe um profundo despertamento pela doçura da lei de Deus que pode facilmente transformar-se em legalismo, o qual comumente motiva uma reação antinomiana. O legalismo não é bíblico, nem o antinomianismo. A lei nos conduz ao evangelho. O evangelho nos salva da maldição da lei, mas, por sua vez, nos leva de volta à lei para alcançar o espírito, a bondade e a beleza da lei. A lei de Deus é ainda uma lâmpada para os nossos pés. Sem ela, tropeçamos na viagem e tateamos na escuridão.

Para o cristão, o maior benefício da lei de Deus é seu caráter revelador. A lei nos revela o legislador. Ensina-nos o que é agradável aos seus olhos. Precisamos buscar a lei de Deus — desejando-a — e deleitar-nos nela. Algo menos do que isto é uma ofensa contra o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Autor: R. C. Sproul | Tradução: Thiago McHertt