Igreja em Quarentena

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Ontem à noite o governador do estado de Santa Catarina emitiu um novo decreto (nº 515, de 17 de março de 2020) declarando situação de emergência em todo o território catarinense (Art. 1º). A motivação parece ser o aumento significativo da transmissão do coronavírus no sul do estado. O decreto inclui a suspensão de todos os serviços não essenciais pelos próximos 7 (sete) dias (Art. 2º) — o que naturalmente não inclui supermercados, farmácias e outros serviços listados no mesmo como essenciais.

O consistório está em contato com o hotel e, de fato, o decreto afetará os cultos da IPR diretamente. Neste período, a rede hoteleira não poderá receber novos hóspedes (Art. 2º, IV), e o hotel onde nos reunimos comunicou que não estarão abertos para eventos pelas próximas três semanas. Além disso, o decreto suspende eventos e reuniões de qualquer natureza, incluindo cultos religiosos, pelos próximos 30 (trinta) dias (Art. 3º). Não sabemos quanto tempo isto perdurará — afinal, o último decreto durou pouco. Mas esta é a situação atual.

O consistório continuará acompanhando o desenvolvimento da situação e comunicando a igreja sobre eventuais mudanças. Então, tenham paciência.

Uma Divina Comédia

Até segunda ordem, os cultos públicos estão suspensos pelos próximos 30 (trinta) dias, conforme o decreto atual. Como escrevi no texto anterior, isso não quer dizer que não possamos ter nenhum tipo de comunhão informal. Mas sim que devemos ser sábios e prudentes ao fazê-lo. Este é um momento de afastamento que exige que estejamos unidos na fé. Aprouve ao Senhor que a nossa igreja, que muitas vezes tem dificuldade em ter comunhão, se aproxime de maneira mais pessoal uns dos outros — haja senso divino de humor!

Não apenas nossa fé como igreja (coletivo) será provada. Mas também nossa vida cristã familiar e individual. O banquete público semanal no dia do Senhor não estará servido, e teremos de nos apegar ao pão de cada dia do culto familiar, oração e leitura das Escrituras em privado. Em tudo isso, não há motivo para desânimo ou temor. Esta não é a primeira vez (nem a última) que a igreja de Cristo se depara com dificuldades e calamidades. O Senhor sempre a sustentou, e continuará a fazê-lo (Mt 16.18). Ele está trabalhando para apresentar a si mesmo uma igreja gloriosa, […] santa e irrepreensível (Ef 5.27).

Homens! Às Armas!

De imediato, o consistório decidiu por não fazer transmissão ao vivo de pregações ou cultos — o que será reconsiderado nas próximas duas semanas. Contudo, o domingo continua sendo o dia de descanso de corpo e alma — dia dedicado ao Senhor. Nenhum decreto mudará isto. Mas a forma como o observamos será diferente.

De forma ordinária, estaremos em casa com nossos familiares e devemos aproveitar este tempo. Se você deseja tomar a liberdade de convidar alguns irmãos para estar em comunhão no dia do Senhor, sinta-se à vontade. Não vale convidar o pastor para pregar na sua casa! Mas se eu estiver por lá, posso tentar responder algumas perguntas à uma distância segura. Por outro lado, se você está demasiadamente temeroso, fique apenas com a sua família. Mas independente da opção tomada, devemos nos voltar à Palavra de Deus. 

No grupo, eu enviarei links com pregações em áudio e vídeo, e você pode ainda ouvir algum outro ministro fiel online, ou pedir alguma recomendação. Os irmãos também podem usar suas redes sociais para compartilhar o que estão vendo/ouvindo a fim de ajudar e incentivar os demais. Além disso, você pode usar o modelo da liturgia de domingo para auxiliá-lo. Leia um chamado à adoração (e. g. Êx 15.2; Sl 95.6-7), e em seguida a lei de Deus (Êx 20.1-17; Dt 51-22). Você pode usar um salmo para a confissão de pecado (e. g. Sl 51) e ler a promessa de perdão (e. g. Sl 103.8, 10-12; 1Jo 1.9). Inclua um hino ou salmo cantado, e intercale isso tudo com orações oferecendo o seu louvor e apresentando seus pedidos a Deus. Homens, tomem seus postos e assumam à frente!

Além do mais, isso tudo é uma boa oportunidade para aprendermos a apreciar aquilo que temos na igreja. Vamos poder sentir saudade dos irmãos, ansiar pelos sacramentos e ser gratos pelo evangelho que ouvimos. Muitas pessoas perdem facilmente o encanto com a igreja e murmuram contra o que Deus lhes deu. Verdadeira gratidão nos impedirá de cair não apenas nesse pecado, mas em muitos outros.

A Obediência da Fé

Além de tudo isso, como vosso pastor, eu gostaria de tratar brevemente sobre dois pontos importantes enquanto consideramos as decisões acima a partir de uma visão bíblica. Vamos falar um pouco de teologia.

Primeiro, muitas pessoas têm descrito este tipo de decisão por parte de igrejas ao redor do globo como uma questão de incredulidade. Não cremos que Deus é soberano e está no controle de tudo? Sim, com todo o nosso coração! Mas a belíssima doutrina da soberania divina não é um substituto para nossa responsabilidade e amor ao próximo. Ou seja, não se trata de falta de fé, mas da obediência da fé.

O Catecismo Maior de Westminster nos ensina que parte dos deveres exigidos no sexto mandamento inclui todo empenho cuidadoso e todos os esforços legítimos para a preservação de nossa vida e a de outros (Resp. 135). Talvez você, como eu, não está tão temeroso em contrair o vírus. Contudo, ainda podemos ser vetores dele para outras pessoas. Em outras palavras, a questão não é só pegar, mas transmitir. Dado o fato de que ainda se sabe pouco sobre a situação (e todas as informações devem ser verificadas, e as especulações medidas) devemos nos esforçar em ser obedientes ao Senhor.

Em segundo lugar, há muita discussão sobre a legitimidade das ações tomadas pelo Estado. A Escritura nos diz que devemos nos sujeitar a toda autoridade constituída entre os homens por amor do Senhor; quer ao rei, como superior, quer aos governadores (1Pe 2.13-14). É claro que temos muitos motivos para desconfiar do Estado — e as más decisões continuam. Mas quando ele está agindo em matéria de segurança pública (que é o caso), seu exercício de autoridade é legítimo. E mesmo aqui, nossa confiança não deve estar em César, mas em Cristo.

Contudo, surgem muitas discussões sobre o Estado ter ou não autoridade para proibir cultos. Depende. Se esta proibição se desse por oposição direta à igreja e ao evangelho, deveríamos desobedecer. Mas este não é o caso. Esta é uma decisão de segurança pública que afeta a igreja indiretamente. Devemos compreender que enquanto a igreja tem autoridade quanto ao que é sagrado (in sacris), o Estado a tem no que circunda o que é sagrado (circa sacra). Vivemos debaixo de duas autoridades legítimas em esferas distintas (duplex regimem). Nosso papel não é opor uma à outra, mas obedecer a Deus em ambas.

Orare et Labutare

Situações como esta têm consequências naturais. A economia já vem sendo afetada por algumas semanas, e as novas medidas podem complicá-la ainda mais. Mas a resposta cristã adequada não é o desespero, e sim orar e agir com sabedoria. Devemos confiar no Senhor e pedir a ele pelo pão nosso de cada dia (Mt 6.11). E a sabedoria bíblica nos ensina que em dias de calamidade o sábio poupa, o tolo esbanja (Pv 21.17, 20).

Além disso, é possível que nos deparemos com pessoas em verdadeira necessidade, e não devemos apenas ouví-las e ir para casa orar por elas (Tg 2.15-16). Socorrê-las é o nosso papel como indivíduos e também como igreja. Por isso, o fundo diaconal também está disponível. Logo, se necessidades surgirem, por favor, entre em contato com o consistório.

Temor e Tremor

Por fim (e estou acabando mesmo, se não isso aqui vai virar sermão), toda esta situação deve nos levar ao tipo certo de temor. Existe muita informação e desinformação correndo pelas mídias. Por isso, por favor, não compartilhem dados e diretrizes sem primeiro conferir as fontes. E evite toda mensagem com tom alarmista nos grupos relacionados à igreja (e, se possível, nos demais) assim como sobrecarregá-los com mensagens (floodar). Desespero e desinformação resultam em uma mistura desastrosa.

Isso nos leva ao tipo errado de temor: o dos homens que governam as nações, o temor do vírus que por elas se espalha, da possível crise. Mas devemos temer aquele que governa todas as coisas, inclusives estas, pois tudo nos sobrevém da sua mão paternal. Como escreveu Amós: quando a trombeta toca na cidade, o povo não treme? Ocorre alguma desgraça na cidade, sem que o Senhor a tenha mandado? (3.6).

Isso não quer dizer que devemos temer a ira de Deus contra nós — como algo mais terrível do que vírus e estadistas juntos. Por causa de Cristo, sabemos que Deus não deseja nos destruir ou punir. Ele é um Pai amável, que corrige a quem ama. Não precisamos temer um juiz irado, pois no evangelho ele se revela um Pai misericordioso.Logo, o tipo certo de temor não deve nos deixar abatidos, desesperados ou em pânico. Ele é um temor que acalma a tempestade do nosso coração, e nos dá sabedoria (Pv 1.7). Que nos dá confiança para adentrarmos a presença de Deus pela fé e alcançar misericórdia (Hb 14.6). O tipo certo de temor nos faz adorar a quem tememos, e nos alegrar enquanto trememos (Sl 2.11).


Autor: Thiago McHertt