Até Quando?

Infelizmente, teremos de passar mais um domingo em nossos lares, sem poder comungar. O hotel nos comunicou que a previsão para retorno das atividades se dará apenas no dia 13 de abril — ou seja, mais um domingo depois deste. Nossa proposta será como no último domingo, acompanhar novamente os cultos transmitidos pelo Pr. Adriano, da Igreja Reformada de Colombo. Os links e demais auxílios serão postados no grupo da IPR.

Enquanto isso, gostaria de encorajar todos a considerarem este tempo em oração e reflexão. O Senhor está no controle de todas as coisas e devemos nos sujeitar a sua soberania e sabedoria. Além disso, devemos continuar orando pelos nossos irmãos. Alguns já estão enfrentando as duras consequências econômicas da quarentena. Reforço que, em caso de qualquer necessidade, por favor, entrem em contato com o conselho.

Para além disso, eu gostaria de compartilhar uma breve meditação inspirada por um excelente livro que acabo de ler, chamado Ira, arrancando o mal pela raiz, escrito por Robert Jones (publicado pela Nutra). Nele, o autor não trata apenas da ira óbvia, externa, agressiva e visível, como se costuma esperar. Mas também fala sobre a ira interna, passiva e invisível e sobre a ira contra nós mesmos.

Embora o assunto possa não ter muita conexão, uma parte do livro lida de maneira específica com a ira contra Deus. Enquanto a ira de Deus é santa e justa, e a ira humana pode ser justa — embora raramente o seja — nosso problema é com a ira pecaminosa. E muitas vezes a nossa ira se ascende contra o Senhor. Situações como esta na qual estamos são ocasiões para isso. 

No livro, o autor cita Jó como um exemplo de submissão a Deus na calamidade. O texto bíblico nos diz: Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma (Jó 1.22). Em seu excelente sermão neste texto, Calvino nos apresenta o antídoto para a ira pecaminosa:

Por que será que os homens se agitam tanto quando Deus lhes envia coisas inteiramente contrárias aos seus desejos, senão porque não reconhecem que Deus faz todas as coisas racionalmente e tem justas causas? Pois se tivéssemos gravado em nosso coração que “tudo que Deus faz é calcado em boas razões” é certo que ficaríamos envergonhados de nos agitarmos de tal modo contra ele quando, digo, sabemos que ele tem justa ocasião de assim dispor todas as coisas, tal como as vemos. Por isso, portanto, diz-se especialmente que Jó não atribuiu a Deus qualquer coisa sem razão, ou seja, que ele não imaginou que Deus tivesse feito qualquer coisa que não fosse justa e correta.
[…]

Assim que Deus não envia o que desejamos, entramos em disputa contra ele, fazemos acusação, ainda que não fique aparente que o fazemos, mas nosso modo de agir demonstra que essa é nossa intenção. Consideramos cada golpe com a pergunta: “E por que isso aconteceu?” Porém, de que espírito vem esse questionamento? De um coração envenenado, como se disséssemos: “Isso deveria ter sido diferente; não vejo razão de isso ter acontecido”. Enquanto isso, Deus é condenado entre nós. É assim que os homens se exasperam. E o que fazem quando isso acontece? É como se acusassem a Deus de ser um tirano ou desmiolado que só faz lançar tudo em confusão. Essa horrível blasfêmia surge da boca dos homens.

[…]

No entanto, o Espírito Santo quis nos dizer que, se quisermos dar glórias a Deus e abençoar seu nome adequadamente, devemos estar persuadidos de que Deus não faz coisa alguma sem razão. Assim, não atribuamos a ele nem crueldade, nem ignorância, como se fizesse qualquer coisa por despeito ou injustiça, mas reconheçamos que ele realiza todas as coisas com admirável justiça, com bondade e infinita sabedoria, de modo que há absoluta correção e justiça em tudo o que ele faz.

— João Calvino, Sermons from Job, p. 29, 30.

Por que o Senhor permitiu tal pandemia sobrevir sobre o mundo? Qual a razão dele nos levar a tal crise econômica? Qual seu objetivo em permitir que tudo isso sobrevenha sua igreja a ponto de impedir a adoração pública? Muitos estão fazendo perguntas como essas (e creio haver respostas para cada uma delas). Mas estaremos pecando ao fazê-las a menos que as façamos com espírito submisso ao Deus santo, justo, soberano e sábio.

O Salmo 13 (como indica o autor do livro citado), nos ensina como devemos agir aqui. Ele diz: Até quando terei inquietações e tristeza no coração dia após dia? (v. 2). Ele reconhece suas inquietações e as apresenta diante de Deus. Mas ele não pára por aí. Ele encerra sua oração declarando sua gratidão, apesar da realidade que o cerca:

Eu, porém, confio em teu amor; o meu coração exulta em tua salvação. Quero cantar ao Senhor pelo bem que me tem feito (v. 5, 6).

Que o Senhor fortaleça a nossa fé e nos ensine a sujeitar-nos a sua poderosa mão. Que ele restaure a nossa sorte e nos permita adorá-lo juntos em breve. Que seja feita a sua vontade.


Autor: Thiago McHertt