Conhecimento sem Zelo

Quando Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, descreve a igreja como o corpo de Cristo, ele fala com mais sabedoria do que nós, tolos, tendemos a ouvir. Como é o hábito da igreja evangélica moderna, tomamos as plenas, ricas, e de fato, belas instruções sobre como devemos viver nossas vidas juntos para o reino e as reduzimos a algo verdadeiro, mas banal, seguro e razoável. Paulo nos diz que somos o corpo de Cristo, e ouvimos: sejam legais uns com os outros.

É uma pequena melhoria quando esta mensagem nos lembra de que o corpo está cheio de pessoas diferentes, com diferentes pontos fortes, os quais são necessários. Meus ouvidos não fazem objeção ao fato de que não podem ver, e o fato de que meus ouvidos ouvem não os torna melhores que meus olhos. Obviamente, Paulo faz sua argumentação pois não importa que parte do corpo sejamos, todos somos demasiadamente orgulhosos. Orelhas podem ter algum nível de gratidão para com os olhos, mas ainda pensam ser o principal componente do corpo. O cérebro pode ser inteligente o suficiente para notar que morreria sem um coração, mas é rápido em apontar a dependência que o coração tem do cérebro. Em suma, todas as partes do corpo carregam a tentação de correr para a linha de frente, esperando ser o maior no reino de Deus.

O que vale para nós, como indivíduos, é frequentemente verdadeiro sobre nós quando se trata de grupos. As partes do corpo de um mesmo tipo tendem a reunir-se. Portanto, não devemos nos surpreender quando reformados se reúnem, eles celebrem a importância da mente cristã. Sem denegrir outras partes do corpo, nós reformados reconhecemos que a nossa força peculiar está no pensar nas questões teológicas com cuidado e precisão. Isso é uma coisa boa. A Reforma, e o que a precedeu, trouxe cuidado e precisão a questões de conseqüências eternas, tal qual: como somos feitos justos diante de Deus? Se você quer uma exposição cuidadosa da natureza da encarnação, seria sábio pedir a alguém de um contexto reformado. Somos os escribas da igreja, debruçados sobre os nossos livros empoeirados.

Se, no entanto, você estiver procurando por paixão, por zelo, se você estiver procurando por afeição, você provavelmente não pensaria em considerar os reformados. Temos uma mente cheia de conhecimento. Mas um coração cheio de amor, bem, muitas vezes este não é o nosso caso.

O perigo da metáfora do corpo é que, se confundirmos a metáfora, ela pode nos deixar em uma posição confortável. Isto é, ela é útil para nos lembrar de não desprezar os pontos fortes e chamados dos outros. Mas isso pode apenas nos deixar satisfeitos com as nossas próprias fraquezas. O fato de que nós reformados somos bons em teologia pode fazer com que os outros fiquem confortáveis em serem ruins em teologia. Por outro lado, o fato de que o nosso coração tende a ser morno não é contrabalanceado pela paixão dos outros. Obviamente, a triste verdade de que alguns têm zelo sem conhecimento, também não justifica a falta de zelo.

Um não compensa o outro. Ou seja, não crescemos em nosso conhecimento diminuindo em nosso zelo. Nem podemos crescer em nosso zelo, diminuindo o nosso conhecimento. Em vez disso, os dois deveriam alimentar e encorajar um ao outro. Considere o apóstolo Paulo. O próprio Pedro reconheceu que Paulo escreveu algumas coisas difíceis de entender (2Pe 3.16). Se alguma vez houve um teólogo denso e erudito, Paulo era tal homem. Mas ele não escreveu apenas densa teologia. Paulo era dado à expressões de êxtase, mesmo em suas epístolas. Ele, de vez em quando, tinha um fervor intenso. O que não podemos perder, no entanto, é a ligação entre os dois. Paulo não escreveu teologia árida em 1 Timóteo e prosa mística em 2 Timóteo. Ele não praticou conhecimento na segunda, quarta e sexta-feira e então zelo na terça-feira, quinta-feira e sábado. Em vez disso, seus acessos de louvor fluem logo após, e melhor, diretamente a partir, da sua densa teologia, e depois, são seguidos por teologia ainda mais densa. Ele se move sem problemas da ortodoxia à doxologia e vice-versa, e, portanto, nos ensina que devemos fazer o mesmo. O que o deixa em êxtase é a glória e a beleza das verdades que está comunicando. O que faz com que ele seja cuidadoso, atencioso, é a glória de Deus e o evangelho sobre o qual ele está escrevendo.

Nossa mente deve instruir nosso coração, da mesma forma como nosso coração deve inspirar nossa mente.

— R. C. Sproul Jr.

Nossa mente deve instruir nosso coração, da mesma forma como nosso coração deve inspirar nossa mente. Se não estamos emocionalmente chocados, se não somos dados a acessos de êxtase, em última análise, isto não se dá porque somos fracos no coração. É porque não entendemos, porque somos fracos na mente. A verdade é suficiente para nos dominar, transformar nossos lábios duros em lábios trêmulos. A verdade vista da maneira correta nos torna capazes de ver pela lágrima no nosso olho. O reino de Deus, o qual buscamos em primeiro lugar, é digno do nosso estudo. Se, no entanto, não celebrarmos sua vinda em consequência disto, falhamos em entender o reino. O reino de Deus é digno de celebração. Se, porém, como consequência, não estudarmos isso, falhamos em nos alegrar nisso. Adentre a Palavra. E deixe a Palavra entrar em você. Dos tais é o reino de Deus.


O autor: R.C. Sproul Jr. serviu como pastor e professor,
além de ser o autor e co-autor de diversos livros.

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